Pernas Pro Ar na mídia

Postado em 19 jan 2010 por bray

Depois de passar por Ribeirão Preto, Recife e São Paulo, o musical “Pernas Pro Ar”, da atriz Cláudia Raia, está em cartaz no Rio de Janeiro. No último fim de semana o jornal O Globo veiculou uma entrevista com a atriz e uma matéria sobre o espetáculo, que reproduzimos abaixo na íntegra.

Musical em projeção – Claudia Raia estrela ‘Pernas pro ar’, com visual 3D, no Píer Mauá

O Globo – 18/01/10

Em apenas seis espetáculos no Armazém 2 do Píer Mauá — a partir de amanhã, sempre às terças e às quartas-feiras —, e só por um dia na Quinta da Boa Vista — 7 de fevereiro, com ingressos grátis —, Claudia Raia será uma dona de casa que, tentada pelo diabo, coloca à prova sua vida sem graça. Visto até agora por mais de 13 mil pessoas pelo país, o musical “Pernas pro ar” tem imagens 3D e marca uma estreia dupla: de Luis Fernando Verissimo como autor de argumento para o gênero e do experimental Cacá Carvalho como diretor de musicais.
O GLOBO: A ficha técnica do espetáculo diz que o autor do argumento é Luis Fernando Verissimo. É isso mesmo? Ele escreveu este musical ou vocês adaptaram alguma crônica dele?

CLAUDIA RAIA: Não, é isso mesmo. Ele escreveu para este espetáculo. Eu estava procurando um autor que trouxesse qualidade de dramaturgia para nós. Já conhecia o Verissimo e já tinha feito muita coisa dele, “Comédia da vida privada”, “TV Pirata”… Resolvi pedir um texto para ele. Liguei, ele lá todo tímido… Aceitou fazer por livre e espontânea pressão.
O GLOBO: Mas você sugeriu algum tema?

CLAUDIA: Eu sugeri. Queria um espetáculo que falasse de mulheres, do universo feminino. Pedi a ele o argumento. Os diálogos foram feitos pelo Marcelo Saback. É o primeiro texto que Verissimo faz para um musical, mas pouca gente sabe que ele adora o gênero. É apaixonado por musical. Viaja duas vezes por ano, para Nova York ou Londres, para assistir a tudo que estreia por lá. É daqueles que, se você pergunta sobre algum musical, fala: “Aquele com a música assim?” E começa a cantarolar. Ele toca sax muito bem, tem o ouvido musical e uma cultura impressionante sobre o gênero.

O GLOBO: E as músicas do espetáculo?

CLAUDIA: Hoje, no país, temos uns cinco elencos que poderiam estar em cartaz com musicais ao mesmo tempo. Mas não temos um time assim nem de autores, nem de compositores de musical. Imagina se tivéssemos vários Chicos Buarques compondo musicais, como ele compôs “A ópera do malandro”. Tem muita gente boa, mas as pessoas têm que se animar a criar para o gênero. Então, o que nós fizemos aqui foi reunir músicas da Broadway, com versões de amigos, do Claudio Botelho, da Bibi Ferreira…

O GLOBO: O Cacá Carvalho, diretor do espetáculo, é ligado ao teatro experimental. O que ele está fazendo num musical?

CLAUDIA: Também fui eu que chamei. Queria esse contraste. O Cacá é uma relação que eu tenho de uma vida inteira. Foi meu coach (treinador) no “Sweet Charity”, em “A favorita”…
É um preparador de atores excepcional. E ele trouxe justamente essa atenção com a interpretação, mesmo quando os atores estão cantando e dançando.

O GLOBO: Ele gosta de musicais?

CLAUDIA: Ele gosta. Mas diz que tem medo. Diz que é muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, fica tonto com aquilo tudo. E, na hora dos ensaios, ele também não estava acostumado com os termos que usamos num musical. A gente falava para dar um play-off (quando o fim de uma música é usado para se passar de uma cena a outra), e ele disse depois que pensava: “Como vou perguntar a eles o que é um play-off?”.

O GLOBO: Por que fazer no Píer Mauá e na Quinta da Boa Vista?

CLAUDIA: Eu só queria fazer em lugares inusitados. Vou conseguir em algumas capitais, com apoio dos governos de cada local. Achei que isso ajudaria a atrair um público diferente daquele que costuma assistir ao gênero. Fazer durante a semana também foi para não competir com eventos de fim de semana, do tipo Chiclete com Banana. O Rio será a primeira capital na qual faremos num lugar que não é teatro. Depois, em Belém, por exemplo, vamos fazer em frente ao Rio Negro, ao ar livre. Em Manaus, devemos fazer numa tenda inflável. Tentamos nos apresentar em locais não convencionais por onde já passamos até agora, mas aí teria que montar até banheiro químico. No Armazém 2, já há um mínimo de estrutura. E, na Quinta da Boa Vista, só vamos poder fazer porque recebemos apoio da Secretaria municipal de Cultura, que vai custear a montagem.

O GLOBO: Outro objetivo que a produção diz ter é popularizar o gênero. Com ingressos custando entre R$ 40 e R$ 150, dá para popularizar?

CLAUDIA: Em qualquer lugar do mundo, ingresso de musical custa uns US$ 120 (cerca de R$ 207) . Aqui, vamos fazer, para uma parte razoável de lugares na plateia (112 lugares, de um total de 950), a R$ 40. A meia-entrada é R$ 20! Não há como ser mais barato que isso, ou então eu não me pago. E olha que já botei bastante do meu bolso nessa produção. Além disso, na Quinta da Boa Vista vai ser de graça, para cinco mil, seis mil pessoas, quantas couberem lá. Mesmo tendo feito só em teatros até agora, acho que consegui atrair um público que não costuma ir a musicais, sim.

O GLOBO: Apresentar um musical, o que exige estrutura cenográfica, num local que não é teatro não é complicado?

CLAUDIA: É. Mas por isso nós não montamos cenários. Montamos uma caixa cênica inteira, para poder levar para onde quiséssemos. Fora que temos cenários feitos de imagens (o espetáculo usa “projeções volumétricas”, colocando os atores dentro de cenários virtuais em 3D). As pessoas nunca viram isso aqui em teatro no Brasil, é coisa de show da Madonna. Agora, do jeito que estou falando, parece fofo, fácil de fazer. Mas levamos três meses para levantar o espetáculo. Só uma empresa no Brasil (a Coddart) tem o software e os projetores dessa tecnologia. Mas o que eles têm é o equipamento. As imagens em alta definição que usaríamos, ninguém tem no país. Tivemos que buscá-las nos Estados Unidos. E, para colocá-las em movimento aqui, foi como fazer desenho animado. Cada minuto de movimento eram 48 horas de trabalho. Ninguém no país sabia direito como fazer isso funcionar no palco. Qual o tom de vermelho deveríamos usar nas roupas para uma imagem de fogo ser projetada lá? Ninguém nos contou. Foi no acerto-e-erro.

Artur Xexéo: Só o carisma de Claudia Raia salva ‘Pernas pro ar’

O Globo – 18/01/2010

RIO – Claudia Raia é dona de um carisma irresistível. E é só esse carisma que se salva na confusão que resume o que é “Pernas pro ar” no palco.

A atriz tem razão quando justifica a utilização de canções de musicais da Broadway, com versões em português fora de seu contexto original, pela escassez de compositores brasileiros que se dediquem ao gênero. Mas, sendo assim, sinceramente, é melhor montar o produto estrangeiro.

As versões de “Pernas pro ar” são ruins – “You could drive a person crazy”, de “Company”, com letra de Sylvia Massari, é a única que funciona – e entram na trama quase sempre de forma forçada. Mas, vamos lá, para um gênero que ainda está se recuperando no Brasil, é bom lembrar que Ed Motta fez as músicas de “Sete”, um musical bem-sucedido; Claudio Botelho já tem um currículo respeitável de canções próprias para o teatro; Miguel Paiva tem musicais em sua trajetória; Aldir Blanc está escrevendo um; Edu Lobo é veterano no estilo; Eduardo Dusek e Nelson Motta são dois nomes que se adaptariam bem ao gênero… Ninguém precisa esperar só pela disposição de Chico
Buarque para escrever para teatro.

Apesar do entusiasmo com que Claudia Raia fala da tecnologia empregada em seu espetáculo, as projeções de “Pernas pro ar” não causam muito impacto. Projeções – em vídeo, em laser ou em 3D – são a grande inovação da cenografia de musicais na Broadway nova-iorquina e no West End londrino. Mas, mesmo no exterior, a impressão que se tem é de que ainda não se sabe conciliar projeções com boa iluminação.

“Memphis”, um dos musicais da atual temporada de Nova York, usa e abusa do vídeo. Mas o que a plateia vê são imagens lavadas num telão ao fundo do palco. Poucos conseguiram a técnica obtida pela última montagem inglesa de “Sunday in the park with George”, na qual uma tela de Seraut é pintada, aos poucos, na frente do público só com o uso de projeções, e em que até alguns personagens só existem por meio da técnica. Quase sempre, projeções e luz não combinam.

Na temporada paulista de “Pernas pro ar”, foi isso que aconteceu, dando, muitas vezes, a impressão de que o palco estava vazio, com exceção do momento em que Claudia Raia troca de figurino em cena só com projeções. Aí, sim, existe um golpe de teatro cenográfico que faz cair o queixo do público.

O argumento do espetáculo é criativo. Uma dona de casa, de vida corriqueira, acorda certo dia sem controle das próprias pernas. São elas que passam a comandá-la, levando-a a lugares que não fazem parte de seu dia a dia. Escrito especialmente para Claudia Raia, dona de um dos pares de perna mais cobiçados do país, o ponto de partida tem mesmo a cara de um musical. Mas, ao ser transposto para os diálogos escritos por Marcelo Saback, o argumento perdeu força, e a peça transformou-se numa sucessão de quadros confusos sem muita coerência na ligação de um com o outro.

A iniciativa de convidar Cacá Carvalho para dirigir também não foi muito acertada. O bom ator rege tudo com a leveza de uma jamanta, pecado mortal para um musical.
No meio disso tudo, porém, há o carisma de Claudia Raia. Pela reação da plateia em São Paulo, já é mais do que suficiente.